Dor cervical é uma importante condição de saúde pública, em crescente prevalência na população em geral, gerando gastos imensos com reabilitação, procedimentos (cirurgias, infiltrações, etc…), afastamentos do trabalho e o mais importante – anos vividos com incapacidade, ou seja, anos em que uma população economicamente ativa, deixa de produzir conhecimento e renda por conta de incapacidades geradas por uma condição de saúde. Existem dados gerados por um estudo financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates que mostram que condições musculoesqueléticas crônicas geram mais gastos ao sistema de saúde americano que Doenças Cardíacas, Diabetes e Câncer somadas!

A classificação de dor cervical mais comum é pelo tempo, ou seja, aguda (até 6 semanas), sub-aguda (de 6 a 12 semanas) e crônica (acima de 12 semanas). O padrão de dor cervical também pode gerar outra classificação como episódio único (crise dolorosa e total recuperação após algum tempo), recorrente (repetição do quadro por 2 ou mais vezes com recuperação total entre os episódios) e persistente quando este quadro se repete em crises sem plena recuperação entre elas. Há muitas classificações importantes para o profissional de saúde que não vale a pena discorrermos aqui, mas conhecer toda a dinâmica do paciente, seus hábitos, sua história, cirurgias pregressas, medicamentos em uso e anseios e expectativas com o tratamento colaboram muito para entendermos melhor todo o contexto envolvido nesta condição.

Vale lembrar também que as dores de cabeça, as dores nos membros superiores (ombros, cotovelos, etc…) e no tronco podem ter sua origem na coluna cervical e esta condição deve ser observada na avaliação clínica pelo profissional de saúde. Geralmente a dor cervical não está relacionada a doenças graves. A imensa maioria dos pacientes tem uma condição benigna e de bom prognóstico.

Olhando agora para os nossos hábitos do dia a dia, falar em dor cervical requer de todos nós um olhar muito mais amplo sobre o paciente do que apenas os ossos, ligamentos, discos e as imagens da ressonância magnética. Inúmeros fatores como obesidade, sedentarismo, estresse elevado, privação do sono ou sono de baixa qualidade, quadros depressivos ou de ansiedade, dentre muitos outros e, geralmente encontrados simultaneamente no mesmo paciente. Não é incomum recebermos no consultório uma pessoa acima do peso, sedentária, estressada, tomando remédios para depressão e dormindo muito mal. Manejar este doente deve levar em conta todos estes fatores e atacá-los ao mesmo tempo, aumentando assim nossas chances de ótimo resultado.

O uso de celulares foi intensamente apontado como causa da explosão de dores cervicais nestes dias mais recentes, mas um estudo brasileiro com 582 pessoas com idade entre 18 e 65 anos publicado na renomada Revista Pain e liderado pelo professor Ney Meziat, excelente fisioterapeuta e pesquisador carioca, concluiu que o uso do celular não tem relação com a prevalência, frequência ou intensidade da dor cervical.

A prevenção de dores musculoesqueléticas, incluindo a dor cervical passam por atividade física regular (que incluam modalidades de força e treinamento aeróbio), saúde mental e controle do estresse, controle do peso e bons hábitos alimentares, bom status socioeconômico, cuidados com o sono e muitas outras frentes descritas nessa ilustração abaixo. Como sempre, o que sabemos é que seu corpo fará adaptações ao longo do tempo – estas adaptações dependem dos estímulos que ele recebe.

Se os estímulos forem de condicionamento físico, de treinamento com exercícios seu corpo se tornará mais forte, mais resistente a dor e você se movimentará com mais confiança. Por outro lado, se os estímulos dados ao corpo e a mente são de estresse alto, sono ruim, imobilidade e obesidade, seu corpo também se adaptará, porém com adaptações negativas e com consequências e desfechos ruins no médio e longo prazo, e acredite, uma dor persistente é na maior parte das vezes um alarme tocando e te pedindo para mudar alguma coisa na sua vida. Pode ser um hábito, um emprego, algo ou alguém que te deixa estressado, etc…

Nunca é tarde para mudar e muito menos para começar uma vida nova.
Pense nisso!

 

O modelo biopsicossocial de dor postula que aspectos biológicos, psicológicos e sociais influenciam quem desenvolve dor crônica (círculos amarelo) e que a dor crônica tem consequências biológicas, psicológicas e sociais (círculos azuis). Cortesia de Frank Corl (Mayo Clinic), Steven Cohen e W Michael Hooten.

Autor: Hélio Nichioka

Fisioterapeuta
Especialista em Dor
Especialista no Sistema de Classificação em sub-grupos no tratamento de dor lombar e cervical
Certificados Internacionais nos melhores treinamentos relacionados aos temas Dor, Neurociência da Dor Crônica, Dor Lombar e cervical, Terapia manual ortopédica, Cognitive Functional Therapy e reabilitação esportiva

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